Travestismo Tipográfico
Computador serve mesmo pra tudo! Quando falam em tipografia digital, você pensa logo em formas inusitadas, surpreendentes, transgressoras? Nada disso! A grande sedução para muitos designers são as letras que o leitor olha e jura q foram feitas a mão, e não com o computador. Para esses designers, a maior qualidade da tecnologia digital, ao invés de ser sua capacidade de gerar informação nova, é sua capacidade inesgotável de simular antigas. É o que aconteceu com muitos dos tipos fantasia criados durante a explosão tipográfica dos anos 1990
(sic). Esses tipos, destinados não à composição de textos longos, mas usados na titulagem de matérias de revistas ditas irreverentes ou em chamadas de anúncios espertos, têm como principal característica o fato de não serem o que parecem.
(Que tal inaugurarmos uma nova tendência, o travestismo digital?)
Nesse universo, o primeiro grupo que chama a atenção é o dos manuscritos.
Tem de tudo nesse saco: desde a elegância de pinceladas aparentemente produzidas por exímios calígrafos, até a informalidade da escrita infantil. Na fotocomposição - o sistema imediatamente anterior ao digital(pré-histórico, portanto) -havia uma profusão de tipos como esses, mas sua principal característica era a regularidade. agora, nos manuscritos digitais, todo o empenho está concentrado na tentativa de simular a irregularidade do gesto, visando com isso sugerir uma escrita casual, espontânea - e, por tabela, esconder o computador embaixo do tapete.
Depois do manuscrito, o próximo passo dos type designers empenhados em projetar tipos fantasia foi atacar as escritas produzidas por artefatos simples, de impresão manual, como o carimbo, as letras de moldes ou os tipos artesanais de bloco de madeira. Numa operação análoga à realizada nos tipos manuscritos digitais, o que mais interessou os projetistas não foi o desnho das letras, mas sim o ruído causado pelo sistema de impressão. Isso mesmo: o que normalmente seria considerado subproduto indesejável do processo passou a protagonista da cena. Uma vez que o centro de interesse são as imperfeições próprias de cada sistema de impressão, elas são amplificadas de modo a cumprirem bem seu papel de estrelas do espetáculo tipográfico. Até aí, nenhuma novidade: desde o início do século XX, o ruído vem ocupando espaços cada vez maiores em todas as boas famílias artísticas ( o velho dada que o diga!) Na tipografia, ele chegou tarde, mas veio com força total. Só que, da mesma forma que não é gesto que está presente nos manuscritos digitais, aqui também não é o ruído genuíno que está presente, mas sim sua simulação. Não foram criadas situações de aleatoridade que gerem ruído, mas simplesmente foi produzido um ruído que, em seguida, passa a ser reproduzido sempre da mesma maneira. Se para olhos não-expertos isso ganha ares de espontaneidade, para os viajados incomoda o fato de todas as letras tereem exatamente as mesmas imperfeições, causadas por hipotéticas rugosidade da superfície do papel (registre-se que, no meio de todo esse barulho, há ruídos, estes sim, interessantes: são produzidos pelos tipos mutantes, que exploram os limites da tecnologia digital; essas experiências estão apenas começando, mas vão longe.)
Reza a teoria da informação: o conteúdo de um meio novo é o meio antigo (no início, o conteúdo da fotografia era a pintura, o do cinema era o teatro, o da televisão, o rádio; depois, cada um deles foi encontrando sua identidade própria). Ora, a tipografia digital não poderia deixar a máquina de escrever passar em brancas nuvens! Só que, da mesma forma que em grande parte dos tipos manuscritos digitais o que mais interessa é a irregularidade da escrita, e que nos tipos que fazem referência a artefatos simples de impressão, o que interessa é o
ruído ocupa um lugar de honra (computador & ruído: essa dupla ainda vai dar o que falar). Um tipo de muito sucesso nos anos 1970, o American Typewriter, recolocou o os tipos mecânicos em cena, mas o foco de sua atenção esta voltado para a nitidez e a precisão de contornos. Em 1991, o Trixie mostrou que imperfeição poderia ser um caminho promisso.
Partido desse mesmo pont - os tipos mecanográficos - outros type designer encontraram outros caminhos, muito, muito interessantes, que culminaram em alguns dos tipos mais marcantes da década de 1990, como o Officina ou o Meta Plus; nesses casos, no entanto, o que aconteceu foi uma reinterpretação da máquina de escrever, e não sua simulação; aqui sim nós tivemos tradução do meio antigo para o meio novo (no melhor sentido da palaravra traduzir: transcritar); esse é o caminho promissor, que também tem frutos ainda a serem colhidos. Neste momemnto, importante mesmo é lembrar onde foi mesmo que você jogou aquela máquina de escrever que ficou tantos anos encostada embaixo da mesa (preste atenção, ela pode estar junto com os discos de vinil e a enceradeira).
O computador é rápido e voraz, tanto que terminou engolindo...a si mesmo. Deglutiu o manuscrito, os artefatos de impressão manual, a máquina de escrever e, por fim, como não restava mais nada para satisfazer seu apetite, ele devorou os computadores de primeira geração (aquele em que a imagem era formada em grids de baixa resolução, por bits visíveis a olho nu). [em matéria de antropofagia, temos que reconhecer que o computador dá um banho!] A
teoria da informação fala mais: diz que quando surge um meio novo, o meio antigo passa a ser considerado artesanato (e aparentado com a arte), enquanto o novo é visto como tecnologia (não se fala sempre que a foto P&B é mais artística que a foto colorida?). E o velho bitmap, que já foi sinônimo de alta tecnologia, quem diria virou artesanato. Mas afinal, cabe perguntar: que mal há no travestismo digital tipográfico? Por acaso faz mal à saúde? Claro que não! Da mesma forma que nao há problema em usar fórmica imitando madeira (o Jacarandá é lindo!), ou o contact imitando mármore. Tipos fantasia podem ser divertidos (até mesmo adequados!), como aqui aqui, neste texto. O problema maior não é o tipo que finge ser o que não é, o problema torna-se sério quando o tipo não pode ser o que ele é. Explicando melhor: duro mesmo é quando , diante de uma peça inequivocadamente produzida por computador, a condenação vem a jato: mas isto tem cara de computador! Alguém se lembra de ouvir comentário semelhante diante de uma xilogravura: - mas esta xilogravura tem cara de xilogravura! - ou diante de uma aquarela, ou de uma serigrafia? Deixemos em paz os tipos e os impressos que são feitos em computador e que não simulam nem xilogravura , nem aquarela, nem serigrafia. Eles não merecem ser condenados por simplesmente parecerem o que são.
Primeira publicação do texto "Travestismo tipográfico":
Arc Design, n.8, São Paulo, Quadrifoglio, jan.-fev. 1999
(título original: "Isto tem cara de computador?").
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MELO, Chico Homem de.
Os desafios do designer & outros textos sobre design gráfico/Chico Homem de melo. São Paulo: Edições Rosari, 2003(Coleção TextosDesign).